Juventude, trauma e mal-estar na contemporaneidade

Margareth Diniz [1]

Ana Linnemann Ana Linnemann

O projeto “SOU MAIS JUVENTUDE” realizado na Universidade Federal de Ouro Preto, desde 2013, derivou de uma situação de morte de dois jovens estudantes, por uso e abuso de álcool e drogas. Alunos/as nos procuraram abalados pelo episódio, dizendo-nos do impacto daquele acontecimento em suas vidas. Participamos, hoje, de situações de insegurança social, era dos atentados terroristas, da violência urbana, dos ataques sexuais, das catástrofes naturais, de uma grande taxa de mortalidade nos casos de traumatismos. Para Laurent (2004), essa insegurança social não é somente um fenômeno sociológico, mas é um novo plano da clínica. Podemos pensar que, para alguns sujeitos, até o acontecimento traumático, eles funcionavam bem, existia uma subjetividade organizada que lhes permitia funcionar sem sobressaltos. O caráter traumático nessas circunstâncias, entendendo o conceito de trauma como nos ensina Laurent (2004), sugere que depois do trauma é preciso reinventar o Outro. Faz-se importante para os psicanalistas trabalharem com o dizer do sujeito para que ele novamente encontre as regras da vida, possa criar certa mentira, uma ficção que inclua o traumático. Conforme Lacan nos diz a respeito do troumatisme: “Inventamos um truque para preencher o buraco no real, ali onde não há relação sexual, Um se inventa” (Lacan, lição de 19/02/1974).

O impacto da morte dos dois estudantes sobre a comunidade de Ouro Preto, levou algumas/uns professores/as a interrogarem: O que querem os jovens na atualidade? Como nós, adultos/as, professores/as do ensino superior, psicanalistas estaríamos implicados com os excessos, atos e passagens ao ato de nossos/as jovens estudantes? Diante dessas perguntas e do nosso embaraço em respondê-las, nos propusemos a conversar entre os pares e os/as próprios jovens da Universidade. Naquele momento, a convocação era ética, não nos permitindo pactuar com o silenciamento. Existe na cidade de Ouro Preto uma tradição republicana, onde festas e eventos são promovidos, quase de forma secreta, impondo rituais de passagem a jovens homens e mulheres para que acedam ao ensino superior e às moradias estudantis federais.

Convidamos os/as alunos/as e professores/as para uma Conversação sobre aquele episódio que abalou a cidade. Apostamos nas Conversações, como dispositivo da psicanálise, que pela oferta da palavra visa tratar o impacto de experiências avassaladoras. Pretendíamos tratar o que restava da experiência, provocando deslocamentos de lugares fixos, já consolidados em nome de “uma tradição”. Tal estratégia poderia fazer vacilar o sujeito preso a verdades inquestionáveis, provocando a busca de novos posicionamentos. Uma aposta que colocaria em funcionamento os restos do trauma, aquilo que como “realidade escondida” carece de significação. Aí, então, seria possível inventar novas saídas.

Naquele momento não havia proposta prévia de um projeto, e o que podemos hoje nomear como o projeto “Sou mais Juventude” nasceu de forma coletiva e compartilhada, como efeito de várias Conversações entre nossos/as colegas professores/as, técnicos/as e estudantes da UFOP. Desde então, alojado no Programa de Pesquisa/extensão Caleidoscópio[2], que visa tratar do mal-estar produzido quando estão em pauta categorias como diferença, subjetividade, inclusão e direitos humanos. Com o transcorrer dos trabalhos, o “Sou Mais Juventude” vem ganhando aliados/as e se organizando como uma ação de pesquisa/intervenção na Universidade. Com o propósito de proporcionar a reflexão contínua na comunidade acadêmica buscamos a construção conjunta de saídas e intervenções sociais e políticas para o enfrentamento dos signos de mal-estar na juventude.

Ao trabalharmos em torno do termo juventudes no plural enfatizamos a multiplicidade de sentidos e interpretações presentes nesse tema, como também ressaltamos a descontinuidade histórica que rompe com a concepção naturalizante das idades de vida do sujeito. Nosso propósito é criar possibilidades de discutir o termo juventude na sua dimensão simbólica, inseparável das transformações decorrentes na ordem social, cultural, política, psíquica e econômica, levando em conta as singularidades.

Joshua Evans-Hooper, Tea Leaves Joshua Evans-Hooper, Tea Leaves

Alguns princípios nos orientam nessa condução da construção de uma política de juventudes na UFOP: o caráter indissociável entre ensino, pesquisa e extensão; uma discussão coletiva e horizontal sobre o tema e seus desdobramentos; a participação de representantes de vários cursos da UFOP; o protagonismo juvenil assegurado por meio de direitos e responsabilidades dos jovens; a inserção de temas da diferença e da diversidade (gênero, sexualidade, raça e etnia, classe, deficiências e necessidades específicas) nas ações da UFOP; a busca da qualidade de vida para estudantes, com melhoria das condições de moradia, alimentação, cultura, lazer, transporte e esporte; a construção de melhores relações com as cidades; a geração de emprego e renda, bem como a preocupação com a inserção no mercado de trabalho; o incentivo à continuidade de estudos em nível de pós-graduação e avanço na internacionalização por meio de intercâmbios e convênios.

Levando em conta esses princípios, bem como o contexto de cada semestre letivo, a programação das edições é construída, passo a passo, com a participação de técnicos/as, professores/as e alunos/as por meio de conversações com o Comitê Gestor do Projeto. Podemos definir alguns eixos que balizam nossas ações:

  1. Colocar em discussão as representações acerca do jovem, sua imagem e seus reflexos na sociedade contemporânea, ressaltando os momentos de transição dos sujeitos.
  2. Enfatizar a relação do jovem com a mídia e a comunicação, pois nos interessa investigar as novas formas de comunicação que vêm se consolidando para garantir o laço social entre os jovens, promovendo assim a interlocução com o eixo anterior sobre as representações de juventudes: em que medida essas representações criam discursos sobre os jovens como vândalos, depredadores, desordeiros, violentos, funkeiros, etc...
  3. Colocar acento na relação da juventude com o cotidiano universitário, nos interessando analisar a perspectiva inclusiva, ou o acolhimento à diferença como bandeira do papel social da universidade.
  4. Importa-nos investigar a relação com as drogas e os seus diferentes usos entre universitários, identificando tanto a prevalência do consumo de substâncias psicoativas entre estudantes, quanto as estratégias da Política de Assistência ao estudante para o acolhimento, encaminhamento ao tratamento e discussões com estudantes sobre o consumo de drogas.
  5. Além das questões anteriormente ressaltadas, destacamos a própria relação do jovem com a aprendizagem de saberes que o levem à formação e profissionalização tem sido outro ponto que nos interessa.

Dos eixos derivam as temáticas que discutimos nas seis edições já realizadas abordando temas como gênero e sexualidade, segregação, violências em torno das questões de misogenia, homofobia e racismo, lutas e resistências políticas, incluindo o próprio movimento estudantil e as ocupações por jovens de espaços públicos; tentativa de garantir e ampliar direitos junto às políticas públicas desenvolvidas. Os debates são francos e abertos junto aos gestores/as, professores/pesquisadores, convidados e com representantes das cidades onde nos inserimos: Ouro Preto, Mariana e João Monlevade, buscando construir de forma coletiva e horizontal a política de juventudes na Universidade Federal de Ouro Preto.

Apresentaremos a seguir alguns recortes das Conversações, localizando questões encaminhadas pelos jovens:

“Passei a falar das imposições de fazer sexo nas festas em que freqüentamos, não somos obrigadas a transar com quem não queremos..”. (Joana, 2014).

“A noite os conservadores de plantão vão para as ruas à procura de pessoas do mesmo sexo para transarem...”(Leon, 2014).

“Queremos discutir sobre os critérios sociais para ocupar as vagas nas repúblicas federais”. (Renato, 2014).

Dos efeitos desse trabalho já recolhemos alguns elementos, como o surgimento de grupos de mulheres que vêm se organizando de forma contundente e denunciando situações de estupro, violências diversas, machismo, assédio, segregação. Grupos de jovens homossexuais que passaram a denunciar fatos de segregação e exclusão nas moradias federais. Recusa de alguns jovens em beber até cair para provar que fizeram o ritual de passagem. Recusa em usar as placas de “BICHO” que antes víamos espalhadas aos montes pela cidade... cada um/a à sua maneira, mas empoderado/a pelo grupo, decide se quer compartilhar com o Outro o sofrimento por ter vivido a mesma experiência, identificando-se, mas produzindo não um silenciamento, uma paralisia dos corpos, mas sim um deslocamento. Onde antes reinava o silêncio, hoje há espaço para a circulação da palavra, a qual nos fornece os elementos para continuar construindo com os jovens, saídas para o mal-estar contemporâneo, além de interrogar a “tradição republicana”.


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